Beira de rio

Meu blog será alimentado com crônicas e outros textos diversos sobre temas do cotidiano, escritos como se eu estivesse tendo inspiração, sentada à beira de um rio encachoeirado.

Beira de rio

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Arquivo de: Fevereiro 2008

12.02.08

Carta à Dona Mariza

 

 

Em um dado momento da vida, qualquer um, penso, gostaria de ter escrito esta carta para Dona Mariza. Eu, pelo menos, me vi nesta crônica. Danuza falou por mim.

 

 

Jornal Folha de S.Paulo - Danuza Leão Carta à Dona Mariza - 05-11-2006
DANUZA LEÃO

Carta a D. Mariza

D. MARIZA, a senhora deve estar muito feliz; seu marido ganhou as eleições, e será presidente por mais quatro anos. Parabéns.

Imagino que quando ele foi eleito pela primeira vez, deve ter sido difícil para a senhora; seria para qualquer mulher. Se habituar a uma nova vida, ter que fazer coisas em que nunca pensou; por outro lado, não poder mais fazer um monte de coisas às quais estava habituada, ter que obedecer ao protocolo, andar cercada por seguranças, não poder entrar num shopping - a senhora deve ser louca por um shopping, não? - e tendo que ter uma vida privada quase secreta, já que a imprensa está sempre de olho.

De olho para falar da cor do esmalte de suas unhas, do penteado, do botox que botou - ou não -, e correndo sempre o risco de alguém de sua intimidade ser indiscreta e contar o que a senhora come no café da manhã, se faz dieta, se fuma, enfim, todas essas coisas que qualquer mulher tem liberdade para fazer, menos a primeira-dama.

Devem ter sido quatro anos difíceis, mas já passaram.
Agora a senhora tem mais quatro pela frente. Quais são seus planos?

Não seria hora de fazer alguma coisa além de ficar sentada naquela cadeirinha, nas cerimônias oficiais, enquanto seu marido discursa?

Ah, D. Mariza, este país é cheio de problemas, e a senhora poderia ajudar em alguma coisa.

Já existe o Bolsa Família e o Fome Zero, mas ainda há muita coisa a ser feita.

Não digo que a senhora seja a mulher mais poderosa do país, mas é casada com o homem mais poderoso, por isso pode decidir fazer o que quiser, e terá toda a ajuda de que precisar.

Ajuda financeira, e ajuda de centenas de mulheres que adorariam colaborar com qualquer coisa que a senhora inventasse fazer, como já aconteceu em nossa História com D. Darcy Vargas e D. Sarah Kubitscheck, por exemplo.

Capacidade a senhora tem: não me esqueço de um programa de televisão onde a vi fazendo sanduíches para vender nas assembléias de metalúrgicos, anos antes de sonhar onde iria chegar.

Esse tipo de coisa a senhora não precisa mais fazer, mas existem outras que não seriam nenhum sacrifício, e que poderiam fazê-la até muito feliz por estar ajudando o governo de seu marido.

Porque botar uma camiseta, sorrir e aplaudir, convenhamos, é muito pouco.

Fazer o quê? Não falta quem lhe diga. Seu marido tem um monte de assessores, todos prontos para ter 50 idéias geniais para que a senhora faça alguma coisa que melhore a vida de quem precisa.

A senhora é forte, decidida, e não tem sentido passar mais quatro anos trocando de terninho para acompanhar o presidente nas viagens, sorrindo para os fotógrafos, não dizer nada sobre assunto algum, e não fazer rigorosamente nada.

Não que a senhora tenha obrigação, mas seria bacana termos uma primeira-dama engajada em algum projeto social, fosse ele qual fosse.

Mas se a senhora quiser continuar a viver a vidinha que vive há quatro anos, poderia pelo menos - pela imagem, D. Mariza, ao menos pela imagem - visitar às vezes um hospital público (sem avisar, para ver a fila na porta), uma creche, uma escola, para mostrar que se interessa pelos mais necessitados, e que seus próximos quatro anos não serão mais apenas umas férias passadas entre o Alvorada e a Granja do Torto, além de viajar pelo mundo no seu luxuoso jatinho.

Pense nisso, D. Mariza. Pegaria muito bem.

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  • Postado em 02:41:53

Sempre Edu

Edu, 16.10.2007



Como olhar a lua cheia, minguante, nova? Velha sim, isto é o que ela é. Ela nos acompanhava sempre, se impondo, por sua beleza. No quintal de Atafona, nos gramados e varandas de Búzios. A gente sentado, submetido ao astro, que clareava o nosso chão.
Vinha Diana, sabendo que era nossa e você a afagava. Ela relaxava, tão feliz.
O aconchego do nosso lar era contagiante. Todo mundo queria um naco: daquela lua, daquelas varandas, da nossa muito gelada cerveja, das nossas mãos trançadas, do nosso amor e, até, das nossas discordâncias, em tom baixo e em tom alto, que desenhavam o nosso amor.
Na manhã, vinha o homem pujante, ao qual ninguém convencia ou fazia parar: era o sol, o rei que, sem pedir licença, se esfregava dengoso na nossa pele. Depois, chegava o ovo de hotel, o pão quente, o suco, a alegria, tudo pelas nossas mãos.
Até o dia em que chegou a bruxa má e suja e brandiu, escondida: “Basta, vocês já foram felizes o tanto que precisavam”.
E, na sua cauda, saiu te puxando, rapidamente, com inveja de tudo o que você criou com as mãos e o cérebro, com raiva da harmonia dos seus traços e dos nossos espaços.
Hoje, espio os gramados, os fogões à lenha, as labaredas, a grama e o capim. E a bruxa brada, maldita: “Vocês já tiveram demais. Não adianta reclamar. Chorem, cada qual em seu canto, que é o que lhes resta”.
Discordo da bruxa. Bato pé, fico firme e grito para ela, mais alto ainda: Sua bruxa, o que nós tivemos de melhor você não conheceu. Nem com todo o seu feitiço, conseguiu pegar para aproveitar. Ficou em nós, em cada um, marcado, pintado, bordado, costurado.
E, quando a lua clareia a praia ou o sol esquenta o nosso olhar, até me rio da bruxa, tão sem preparo, tão perdida, tão cega. E judio dela: Vem, sua suja, vem pegar o que você não conheceu.
Ela se estrangula. Fica o silêncio.





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Meu primeiro bilhete para Edu

Edu partiu no dia 09 de junho de 2007. Eu, cuja escrita é a minha maior forma de comunicação, fiquei tão perplexa, que só consegui falar da saudade, da dor, dois meses e meio após, em Búzios, na casa de Marcella.

 

Búzios, 24 de agosto de 2007



Eduardo,



Eu e os meus bilhetes ou cartas ou escritos. A minha forma mais conhecida de comunicação, depois da fala, claro. Você não gostava muito.
Eu imaginava que seria difícil viver sem você, mas não sabia que seria tanto. Quase impossível.
Você está nas flores, literalmente na água, no ar, nas compras, nas almofadas e cortinas, nos candelabros, nos lampiões, na Rua do Lavradio, na sua cadeira, no seu puf, na sua obra, no meu coração.
Amanhã, vou tratar do aluguel da loja, da decoração, com Gustavo (COMO?), dos brindes que venderei (COMO? Como aplicar o pronome na primeira pessoa do singular?).
Éramos sempre nós, “estreitos nós”, desde à hora em que nos vimos.
Você se foi para onde, meu amor?
Vou mandar a nossa Montana embora. Sem você, ela ficou pequena, fora de lugar. Consigo mal entrar nela, o seu orgulho.
Olho pra lua, pras ruas, pro verde, pros mares e penso que você vai brotar de repente, como um pescador de pérolas que descobriu a maior ostra, criou raiz, caule, folhas e vai irromper do azul imenso do Mar de Geribá para fazer as flores e entregá-las a mim. Como você fez no meu aniversário.
A poesia está de férias. Vou dar um grito pro mundo todo. Calar as raças, as castas, as magras, as boas, as más, os influentes, os indignos, os bárbaros, os cegos. Decretar silêncio no mundo. Baixem as cortinas. Sem aplausos. Edu se foi.
E eu? Enquanto não puder, não vou. Vou ficar estanque. Pensando nas suas mãos, nos seus pés, no seu dorso, na sua cabeça, nos seus cabelos, nas suas bermudas, nos seus tênis, na tinta correndo sobre a tela, no seu olhar travesso quando pintava uma boa idéia. Estou travada, Edu. Sentindo dor, tanta dor. Mas, desta vez, não quero brincadeira não. Vou sentir sua falta até sangrar. Vou deitar em todos os colos. Vou chorar a Praia de Geribá, pra onda vir arrebentar na beirada, com você junto.
É muita, muita dor. Dor que não melhora. Só piora.
Vem o Arquiteto amanhã. Vai fazer a casa de Marcella. O martelo, a enxada, a marreta vão derrubar o campo de flores que você implantou aqui neste lugar. Cada pedra que cair, vai doer no meu coração.
Que poesia, que nada! Que literatura! Bom mesmo era ter você ao lado, neste silêncio absoluto, que crava, que ensina.
Eu te amo, meu amor. Faltava tão pouquinho. Por que você não esperou? A sua dor era enorme, por dentro, imprescrutável e ela te cobria de medo. O medo que te levou.
Queria ouvir o vento cantar a canção que pedi a ele hoje: Eduardo, Eduardo, Eduardo e que este vento viesse me desmanchar os cabelos, secar as lágrimas do meu rosto, meu gosto, minha vida sem você.


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11.02.08

Goya

10 de fevereiro de 2008

O colunista Ancelmo Góis dá conta, na sua coluna de hoje, de que o Hospital Gafrée e Guinle, que cuida de crianças com HIV, precisa de doações de leite e Cremogema. Fui ao site da instituição checar a realidade, mas somente amanhã terei detalhes e volto ao assunto. Afinal, a ser absolutamente real a nota, podemos, se quisermos, ajudar.

Antes de assistir ao filme “Desejo e Reparação”, que recomendo veementemente na “crônica” anterior e prossigo recomendando, pensava em ver “Sombras de Goya”, este pintor e gravador espanhol, figura humana diferenciada.

Por questões de urgência, inverti a ordem de ver os filmes. Acho que acertei em cheio.

A história de Francisco Goya não difere muito da dos pintores da sua e de todas as épocas. Mais do que a obra, a alma sensível dos artistas vive permeada por grandes conflitos psicológicos, que eles imaginam poder ultrapassar, através da arte. Poucos deles conseguiram. Basta ler a biografia e conhecer a obra atormentada de tantos, a exemplo de Fridha Khalo, Van Gogh, Jackson Polloch, dentre outros.

Bom, mas voltando ao filme “Sombras de Goya”, passo a palavra ao irretocável Luiz Fernando Veríssimo, em sua crônica de hoje, no jornal O Globo. Depois de lê-la, confesso que me vi instigada a assistir ao filme, o mais rapidamente possível, para poder formar a minha própria opinião: 


Uma sobra de Goya


“O roteiro do filme “Sombras de Goya” é do diretor Milos Forman e de Jean Claudet Carrièrre, que deveria espalhar que foi Forman quem escreveu quase tudo. O filme não chega a comprometer Forman como diretor, mas o roteiro compromete os dois como autores, e Carrière (roteirista do Buñuel e do Peter Brooks, entre outros) tem uma bela reputação a proteger. Imagine uma história envolvendo Goya em que Goya é supérfluo. Uma das personalidades mais intrigantes e instigantes da história, cujas vida e obra dariam vários filmes, neste é usada como figura secundária, sem nenhuma importância na trama, que por sua vez é um novelão literalmente inacreditável. Goya já tinha sido maltratado no cinema. Lembro até uma versão de Hollywood chamada “A maja nua”, em que Ava Gardner era a Duquesa de Alba, suposta paixão do pintor e suposta modelo para a célebre pelada, e Anthony Franciosa era um Goya atlético e espadachim. Carlos Saura também não fez o filme que poderia ter feito sobre Goya, que assim permanece como um exemplo supremo de desperdício, um personagem pronto para o cinema que o cinema nunca aproveitou. E que no filme de Forman é reduzido a coadjuvante do Javier Barden, o espanhol do momento, com sua cara monumental.


Goya, além de não ter função no enredo, atrapalha o filme. Como não podiam ignorar sua surdez – não sei porque, pois ignoraram todo o resto da sua biografia – inventaram um ridículo assistente cujo trabalho é traduzir para o pintor o que está sendo dito em linguagem de sinais, que Goya presumivelmente aprendeu num curso intensivo. O que só serve para atrasar a ação e aumentar nossa perplexidade com a presença do Carrière nos créditos. A certa altura desaparece o assistente meio zonzo, que provavelmente pediu à produção para ser poupado do vexame geral, e Goya passa a entender tudo o que dizem. Não temos nem a Ava Gardner para compensar o resto, e a Natalie Portman só aparece nua de longe e pendurada do teto.


Fica-se imaginando o filme que poderia ser feito – até pelo próprio Forman, no estilo do seu “Amadeus” – com um bom roteiro sobre este que foi um dos quatro ou cinco principais transformadores da história da arte, e sua progressão de pintor das frivolidades e vaidades da corte espanhola ao torturado autor das terríveis pinturas negras que fez no fim da vida para não serem vistas por ninguém, passando pelas gravuras sobre a insensatez humana até hoje inigualáveis na sua acidez. Um filme em que a história daqueles tempos fosse entrevista através da fascinante história pessoal de Goya, em vez de um filme em que, pelos furos de uma história falsificada, se avista, vez que outra, a sombra de um Goya irrelevante. Só nos resta, por misericórdia, fingir que este filme não foi feito e expurgá-lo do currículo de Carrière.


Uma sugestão: se for ver o filme, resista à tentação de sair no meio, apesar de tudo. Tenha paciência. As principais pinturas do Goya – com a conspícua ausência das majas, a vestida e a desnuda – aparecem no fundo dos créditos finais. São as únicas razões para ver o filme”.


Como Edu não está mais aqui para divergir ou concordar (acho mais verossímil) com Veríssimo, com a palavra o meu mais novo crítico particular de cinema. Se já viu o filme. Se não, como um bom discípulo dos grandes críticos, mãos à obra, querido amigo.




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