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Se alguém me dissesse, há dois meses atrás, que eu, hoje, estaria em Campos, compondo, como Coordenadora, a Equipe Jurídica do Eleitoral de Rosinha, eu diria que essa pessoa estava sonhando.
Sonhava sim, mas de olhos abertos, pois é onde eu me encontro, há dois meses, fazendo justamente o que disse acima.
E feliz, sabe?
A morte do Edu me deixou sem chão, sem norte. Achei e quis muita coisa. Mas Deus e Freud me salvaram. Fiz como eles determinam: parei e deixei as coisas acontecerem. E elas estão acontecendo.
Como é voltar à pátria de nascimento, mesmo que temporariamente? É como sempre imaginei. Terrível em quase todos os pontos. Bom para trabalhar. Afinal, aqui as distâncias são pequenas e a locomoção é muito mais fácil do que na cidade grande. Assim, trabalhar fica mais fácil. Especialmente, aos 57 anos.
E moro no lugar em que trabalho. Bem instalada e longe do movimento do escritório, como trabalhei, aqui, durante mais de vinte anos.
Outro ponto mais que positivo é estar perto de Lalane, Marco Aurélio, Pedro e Pipe, um dos meus sonhos de consumo acalentado.
Todavia, em quase todos os outros aspectos, retornar a Campos é desconfortável. Ver a cidade se esvaindo, as casas sem pitura, espigões subindo, os mesmos fofoqueiros e invejosos de plantão. O diz-quediz-que natural daqui, mas do qual eu pensei que já estivesse livre.
As pessoas, aqui, são más. Têm o olhar enviesado daqueles que não divisam o horizonte. E não são más só por dolo. O são, também, por desinformação, por contentarem-se com o pouco, o menos.
De 15 em 15 dias vou ao Rio, para ser analisada pelo meu terapeuta. Da primeira vez, olhei a casa com tristeza. Afinal, foi lá que vivi triste demais os últimos doze meses. Tenho que revolver o meu apartamento e passar a morar nele, de verdade.
Tenho um amigo, decorador de interior, que se comprometeu a ir comigo ao Rio para a gente colcoar a minha cara no apartamento.
Preciso recomeçar a viver. De outra forma, com outros olhos. Caminhando em frente, mais feliz. Todavia, com um retrovisor, para ir corrigindo os percalços e tropeços.
Quero me encontrar comigo. Quero começar a treinar a viver sozinha. Quero me encontrar, também, com o Rio. A minha nova cidade. A minha nova casa.
Esta vida cigana se parece com o turbilhão que vivo por dentro. Ainda não parei. Ainda não deitei confortavelmente a Rosemary. Ainda não sosseguei, não pude balançar na rede e jogar pensamento fora.
A ansiedade que toma conta de mim, a vida que desvivi, precisam ser olhadas com respeito e decisão. Quero tomar pé delas e resolvê-las, terminar de conhecê-las e domá-las.
Quero ser, finalmente, Rosemary. E só.