Beira de rio

Meu blog será alimentado com crônicas e outros textos diversos sobre temas do cotidiano, escritos como se eu estivesse tendo inspiração, sentada à beira de um rio encachoeirado.

Beira de rio

Meu blog será alimentado com crônicas e outros textos diversos sobre temas do cotidiano, escritos como se eu estivesse tendo inspiração, sentada à beira de um rio encachoeirado.
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18.04.08

Esgotada

Muito esgotada e já fora da PUC, meu bom e saudável desafio, continuo, usando imagem do Mestre Caetano: "no ar, antes de mergulhar".

E, sem um pingo de inveja, mas, numa análise crua da realidade, vejo que podia ter feito um país, como ele, Gil, Bethania, Marieta Severo, Fernando Montenegro e outros e fiquei por aqui, embora braços sempre me tivesem sido abertos.

Talvez seja da minha natureza brilhar em pequenos palcos, como na minha casa, no meu escritório, nos meus trabalhos, junto dos meus amigos e parentes. Assim, devagarzinho.

E por quê não consigo ir mais? Porque sempre tenho que me cobrar uma posição politicamente correta, em todas as áreas, como se estivesse de prontidão: tenho que trabalhar, tenho que investir, tenho que ver as minhas atividades serem, sempre, existosas. E quem disse que todo mundo tem que só ter êxito? Aliás, a teoria é a do "ensaio e erro" e não do "ensaio e acerto". E é vivendo, dando a cara à tapa, errando, acertando, que se escreve um história de vida.

Êxitos já tive muitos. Pontifiquei, num Escritório de Advocacia, durante 24 anos e atendi cada cliente que, de mim, esperou uma solução. Implantei, em Campos, dois serviços de Atendimento à Mulher, fui Diretora do Fundo Municipal de Assistência Social e da Equipe de Monitoramento e Avaliação da Secretaria de Promoção Social, onde tive o meu trabalho bastante  valorizado por Jane Nunes, a Secretária da pasta e pelo Prefeito Arnaldo Vianna. Prestei concurso e sou Procuradora do Município de Campos dos Goytacazes, com atividades no Rio de Janeiro...

É claro que postei esta crônica, porque estou confusa, de luto, meio sem pátria definida, deixando escoar a dor.

Meus leitores que desculpem o mau jeito, o desabafo.

Continuo futura e "principescamente", algum dia.

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  • Postado em 01:51:18

23.03.08

Animada, muito animada

A PUC me embriagou. Dos seus bosques - que coisa, por cima da copa das árvores, me encontrei com Deus, sem restrições. E nos demos um longo abraço, como se Ele estivesse abonando a minha escolha. Foi muito bom.

Após o sacrossanto encontro, dirigi-me à sala Art 1 para assistir à minha primeira aula no Curso de Pós-Graduação "O Lugar do Design na Leitura: multimeios, interatividade e visualidades", sem saber o que ia se passar.

A Animadora Cláudia Bolshaw, convidada da noite, deu um banho de Animação na Turma. Foi uma injeção. Foram filmes e mais filmes, informações e mais informações, técnicas e mais técnicas.

Ela, todavia, não sabe o quanto me cutucou e me deixou perplexa.

Cutucou porque, do alto dos seus mais de 30 anos, apresentou um caso como milagre: um aluno de 60 anos, trabalhador da área de Saúde a vida inteira, por vontade própria e alguns problemas pessoais, havia conseguido fazer bons filmea de Animação.

E me deixou perplexa porque uma Mestre, uma mulher preparada, traz arraigado em si o preconceito contra uma pessoa de 60 anos (ou quase, como eu) que quer mudar de área, que quer recomeçar.

Ela, por parecer gente da melhor qualidade, deve ter este preconceito por falta de observação, por serem casos mais difíceis de acontecer. Ou, então, não prestou atenção. E foi neste viés que embarquei fogosa. Vou provar a ela que alguém, com 57 anos, vai fazer uma parceria médio-secular e vai produzir um filme de animação. E com a colaboração dela, diga-se de passagem.

Já tenho um desenhista: Bruno, meu sobrinho-neto. Sagaz, inteligente, com sendo de humor cítrico e rápido, muito rápido. Consultado, ele já tem a história ilustrada. Faltam algum alinhavos. Topou na hora. Só falta ele fechar o Projeto e eu aprender as técnicas e solicitar a colaboração da Mestre Cláudia ou quem ela me indicar.

Amanhã, já recebi notícias da emérita Professora Jackeline Farbiarz, Mestre, que a aula vai ser sobre RPG e que todos os alunos vamos ver tudo pela primeira vez.

Furei com notícias que prometi  no Blog. Não assisti à "Sombras de Goya", nem voltei ao site do Hospital Gafrée e Guinle para saber das doações.

Meio sem jeito, confesso que cumprirei todas as palavras empenhadas.


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12.02.08

Carta à Dona Mariza

 

 

Em um dado momento da vida, qualquer um, penso, gostaria de ter escrito esta carta para Dona Mariza. Eu, pelo menos, me vi nesta crônica. Danuza falou por mim.

 

 

Jornal Folha de S.Paulo - Danuza Leão Carta à Dona Mariza - 05-11-2006
DANUZA LEÃO

Carta a D. Mariza

D. MARIZA, a senhora deve estar muito feliz; seu marido ganhou as eleições, e será presidente por mais quatro anos. Parabéns.

Imagino que quando ele foi eleito pela primeira vez, deve ter sido difícil para a senhora; seria para qualquer mulher. Se habituar a uma nova vida, ter que fazer coisas em que nunca pensou; por outro lado, não poder mais fazer um monte de coisas às quais estava habituada, ter que obedecer ao protocolo, andar cercada por seguranças, não poder entrar num shopping - a senhora deve ser louca por um shopping, não? - e tendo que ter uma vida privada quase secreta, já que a imprensa está sempre de olho.

De olho para falar da cor do esmalte de suas unhas, do penteado, do botox que botou - ou não -, e correndo sempre o risco de alguém de sua intimidade ser indiscreta e contar o que a senhora come no café da manhã, se faz dieta, se fuma, enfim, todas essas coisas que qualquer mulher tem liberdade para fazer, menos a primeira-dama.

Devem ter sido quatro anos difíceis, mas já passaram.
Agora a senhora tem mais quatro pela frente. Quais são seus planos?

Não seria hora de fazer alguma coisa além de ficar sentada naquela cadeirinha, nas cerimônias oficiais, enquanto seu marido discursa?

Ah, D. Mariza, este país é cheio de problemas, e a senhora poderia ajudar em alguma coisa.

Já existe o Bolsa Família e o Fome Zero, mas ainda há muita coisa a ser feita.

Não digo que a senhora seja a mulher mais poderosa do país, mas é casada com o homem mais poderoso, por isso pode decidir fazer o que quiser, e terá toda a ajuda de que precisar.

Ajuda financeira, e ajuda de centenas de mulheres que adorariam colaborar com qualquer coisa que a senhora inventasse fazer, como já aconteceu em nossa História com D. Darcy Vargas e D. Sarah Kubitscheck, por exemplo.

Capacidade a senhora tem: não me esqueço de um programa de televisão onde a vi fazendo sanduíches para vender nas assembléias de metalúrgicos, anos antes de sonhar onde iria chegar.

Esse tipo de coisa a senhora não precisa mais fazer, mas existem outras que não seriam nenhum sacrifício, e que poderiam fazê-la até muito feliz por estar ajudando o governo de seu marido.

Porque botar uma camiseta, sorrir e aplaudir, convenhamos, é muito pouco.

Fazer o quê? Não falta quem lhe diga. Seu marido tem um monte de assessores, todos prontos para ter 50 idéias geniais para que a senhora faça alguma coisa que melhore a vida de quem precisa.

A senhora é forte, decidida, e não tem sentido passar mais quatro anos trocando de terninho para acompanhar o presidente nas viagens, sorrindo para os fotógrafos, não dizer nada sobre assunto algum, e não fazer rigorosamente nada.

Não que a senhora tenha obrigação, mas seria bacana termos uma primeira-dama engajada em algum projeto social, fosse ele qual fosse.

Mas se a senhora quiser continuar a viver a vidinha que vive há quatro anos, poderia pelo menos - pela imagem, D. Mariza, ao menos pela imagem - visitar às vezes um hospital público (sem avisar, para ver a fila na porta), uma creche, uma escola, para mostrar que se interessa pelos mais necessitados, e que seus próximos quatro anos não serão mais apenas umas férias passadas entre o Alvorada e a Granja do Torto, além de viajar pelo mundo no seu luxuoso jatinho.

Pense nisso, D. Mariza. Pegaria muito bem.

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  • Postado em 02:41:53

Sempre Edu

Edu, 16.10.2007



Como olhar a lua cheia, minguante, nova? Velha sim, isto é o que ela é. Ela nos acompanhava sempre, se impondo, por sua beleza. No quintal de Atafona, nos gramados e varandas de Búzios. A gente sentado, submetido ao astro, que clareava o nosso chão.
Vinha Diana, sabendo que era nossa e você a afagava. Ela relaxava, tão feliz.
O aconchego do nosso lar era contagiante. Todo mundo queria um naco: daquela lua, daquelas varandas, da nossa muito gelada cerveja, das nossas mãos trançadas, do nosso amor e, até, das nossas discordâncias, em tom baixo e em tom alto, que desenhavam o nosso amor.
Na manhã, vinha o homem pujante, ao qual ninguém convencia ou fazia parar: era o sol, o rei que, sem pedir licença, se esfregava dengoso na nossa pele. Depois, chegava o ovo de hotel, o pão quente, o suco, a alegria, tudo pelas nossas mãos.
Até o dia em que chegou a bruxa má e suja e brandiu, escondida: “Basta, vocês já foram felizes o tanto que precisavam”.
E, na sua cauda, saiu te puxando, rapidamente, com inveja de tudo o que você criou com as mãos e o cérebro, com raiva da harmonia dos seus traços e dos nossos espaços.
Hoje, espio os gramados, os fogões à lenha, as labaredas, a grama e o capim. E a bruxa brada, maldita: “Vocês já tiveram demais. Não adianta reclamar. Chorem, cada qual em seu canto, que é o que lhes resta”.
Discordo da bruxa. Bato pé, fico firme e grito para ela, mais alto ainda: Sua bruxa, o que nós tivemos de melhor você não conheceu. Nem com todo o seu feitiço, conseguiu pegar para aproveitar. Ficou em nós, em cada um, marcado, pintado, bordado, costurado.
E, quando a lua clareia a praia ou o sol esquenta o nosso olhar, até me rio da bruxa, tão sem preparo, tão perdida, tão cega. E judio dela: Vem, sua suja, vem pegar o que você não conheceu.
Ela se estrangula. Fica o silêncio.





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  • Postado em 02:25:32

Meu primeiro bilhete para Edu

Edu partiu no dia 09 de junho de 2007. Eu, cuja escrita é a minha maior forma de comunicação, fiquei tão perplexa, que só consegui falar da saudade, da dor, dois meses e meio após, em Búzios, na casa de Marcella.

 

Búzios, 24 de agosto de 2007



Eduardo,



Eu e os meus bilhetes ou cartas ou escritos. A minha forma mais conhecida de comunicação, depois da fala, claro. Você não gostava muito.
Eu imaginava que seria difícil viver sem você, mas não sabia que seria tanto. Quase impossível.
Você está nas flores, literalmente na água, no ar, nas compras, nas almofadas e cortinas, nos candelabros, nos lampiões, na Rua do Lavradio, na sua cadeira, no seu puf, na sua obra, no meu coração.
Amanhã, vou tratar do aluguel da loja, da decoração, com Gustavo (COMO?), dos brindes que venderei (COMO? Como aplicar o pronome na primeira pessoa do singular?).
Éramos sempre nós, “estreitos nós”, desde à hora em que nos vimos.
Você se foi para onde, meu amor?
Vou mandar a nossa Montana embora. Sem você, ela ficou pequena, fora de lugar. Consigo mal entrar nela, o seu orgulho.
Olho pra lua, pras ruas, pro verde, pros mares e penso que você vai brotar de repente, como um pescador de pérolas que descobriu a maior ostra, criou raiz, caule, folhas e vai irromper do azul imenso do Mar de Geribá para fazer as flores e entregá-las a mim. Como você fez no meu aniversário.
A poesia está de férias. Vou dar um grito pro mundo todo. Calar as raças, as castas, as magras, as boas, as más, os influentes, os indignos, os bárbaros, os cegos. Decretar silêncio no mundo. Baixem as cortinas. Sem aplausos. Edu se foi.
E eu? Enquanto não puder, não vou. Vou ficar estanque. Pensando nas suas mãos, nos seus pés, no seu dorso, na sua cabeça, nos seus cabelos, nas suas bermudas, nos seus tênis, na tinta correndo sobre a tela, no seu olhar travesso quando pintava uma boa idéia. Estou travada, Edu. Sentindo dor, tanta dor. Mas, desta vez, não quero brincadeira não. Vou sentir sua falta até sangrar. Vou deitar em todos os colos. Vou chorar a Praia de Geribá, pra onda vir arrebentar na beirada, com você junto.
É muita, muita dor. Dor que não melhora. Só piora.
Vem o Arquiteto amanhã. Vai fazer a casa de Marcella. O martelo, a enxada, a marreta vão derrubar o campo de flores que você implantou aqui neste lugar. Cada pedra que cair, vai doer no meu coração.
Que poesia, que nada! Que literatura! Bom mesmo era ter você ao lado, neste silêncio absoluto, que crava, que ensina.
Eu te amo, meu amor. Faltava tão pouquinho. Por que você não esperou? A sua dor era enorme, por dentro, imprescrutável e ela te cobria de medo. O medo que te levou.
Queria ouvir o vento cantar a canção que pedi a ele hoje: Eduardo, Eduardo, Eduardo e que este vento viesse me desmanchar os cabelos, secar as lágrimas do meu rosto, meu gosto, minha vida sem você.


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  • Postado em 02:12:43