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Em um dado momento da vida, qualquer um, penso, gostaria de ter escrito esta carta para Dona Mariza. Eu, pelo menos, me vi nesta crônica. Danuza falou por mim.
Jornal Folha de S.Paulo - Danuza Leão Carta à Dona Mariza - 05-11-2006
DANUZA LEÃO
Carta a D. Mariza
D. MARIZA, a senhora deve estar muito feliz; seu marido ganhou as eleições, e será presidente por mais quatro anos. Parabéns.
Imagino que quando ele foi eleito pela primeira vez, deve ter sido difícil para a senhora; seria para qualquer mulher. Se habituar a uma nova vida, ter que fazer coisas em que nunca pensou; por outro lado, não poder mais fazer um monte de coisas às quais estava habituada, ter que obedecer ao protocolo, andar cercada por seguranças, não poder entrar num shopping - a senhora deve ser louca por um shopping, não? - e tendo que ter uma vida privada quase secreta, já que a imprensa está sempre de olho.
De olho para falar da cor do esmalte de suas unhas, do penteado, do botox que botou - ou não -, e correndo sempre o risco de alguém de sua intimidade ser indiscreta e contar o que a senhora come no café da manhã, se faz dieta, se fuma, enfim, todas essas coisas que qualquer mulher tem liberdade para fazer, menos a primeira-dama.
Devem ter sido quatro anos difíceis, mas já passaram.
Agora a senhora tem mais quatro pela frente. Quais são seus planos?
Não seria hora de fazer alguma coisa além de ficar sentada naquela cadeirinha, nas cerimônias oficiais, enquanto seu marido discursa?
Ah, D. Mariza, este país é cheio de problemas, e a senhora poderia ajudar em alguma coisa.
Já existe o Bolsa Família e o Fome Zero, mas ainda há muita coisa a ser feita.
Não digo que a senhora seja a mulher mais poderosa do país, mas é casada com o homem mais poderoso, por isso pode decidir fazer o que quiser, e terá toda a ajuda de que precisar.
Ajuda financeira, e ajuda de centenas de mulheres que adorariam colaborar com qualquer coisa que a senhora inventasse fazer, como já aconteceu em nossa História com D. Darcy Vargas e D. Sarah Kubitscheck, por exemplo.
Capacidade a senhora tem: não me esqueço de um programa de televisão onde a vi fazendo sanduíches para vender nas assembléias de metalúrgicos, anos antes de sonhar onde iria chegar.
Esse tipo de coisa a senhora não precisa mais fazer, mas existem outras que não seriam nenhum sacrifício, e que poderiam fazê-la até muito feliz por estar ajudando o governo de seu marido.
Porque botar uma camiseta, sorrir e aplaudir, convenhamos, é muito pouco.
Fazer o quê? Não falta quem lhe diga. Seu marido tem um monte de assessores, todos prontos para ter 50 idéias geniais para que a senhora faça alguma coisa que melhore a vida de quem precisa.
A senhora é forte, decidida, e não tem sentido passar mais quatro anos trocando de terninho para acompanhar o presidente nas viagens, sorrindo para os fotógrafos, não dizer nada sobre assunto algum, e não fazer rigorosamente nada.
Não que a senhora tenha obrigação, mas seria bacana termos uma primeira-dama engajada em algum projeto social, fosse ele qual fosse.
Mas se a senhora quiser continuar a viver a vidinha que vive há quatro anos, poderia pelo menos - pela imagem, D. Mariza, ao menos pela imagem - visitar às vezes um hospital público (sem avisar, para ver a fila na porta), uma creche, uma escola, para mostrar que se interessa pelos mais necessitados, e que seus próximos quatro anos não serão mais apenas umas férias passadas entre o Alvorada e a Granja do Torto, além de viajar pelo mundo no seu luxuoso jatinho.
Pense nisso, D. Mariza. Pegaria muito bem.
criado por roselopes.rosemary
02:41:53